Representatividade: irmãos de MG vencem preconceito e conquistam mercado com café especial LGBT

  • 15/08/2026
(Foto: Reprodução)
Irmãos do Sul de MG vencem preconceito e conquistam mercado com café especial LGBT Assumir ser gay no agro, setor ainda marcado pelo conservadorismo, é uma atitude de coragem. Levar a representatividade LGBTQIAP+ para o negócio de café especial é tão corajoso quanto. Portanto, coragem é o que define os irmãos Filipe Campos Mendonça, de 32 anos, e Tiago Campos Mendonça, de 30. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram Os irmãos Filipe e Tiago, idealizadores do café Nhaí Arquivo pessoal Ambos revelaram suas sexualidades para os pais há cinco anos. Foi a porta de entrada para se envolverem na tradição agrícola da família e lançarem dois selos de cafés especiais, um deles com temática LGBT, que vêm conquistando mercado. “É muito difícil no meio do agro a gente levantar essa bandeira por ter muito preconceito, mas depois de muita luta que a gente enfrentou, a gente está colhendo os frutos”, diz Tiago. De volta às origens Naturais de Três Pontas (MG), os irmãos cresceram cercados pelos cafezais da família, mas não foram estimulados a vê-los como futuro. ”O preço do café não foi bom por um tempo e a gente ouvia o nosso avô e nosso pai reclamarem. Eles falavam que a gente tinha que estudar, ter uma profissão e ir para fora", conta Tiago. Foi o que fizeram. Filipe formou-se em direito, morou na Austrália e trabalhou em banco. Tiago cursou engenharia de energia, fez intercâmbio na Espanha e construiu carreira em São Paulo. “A reclamação fez a gente se afastar desse ramo e, depois, a gente não queria voltar para o campo por conta da sexualidade. A gente buscou vários caminhos, eu principalmente, tentei algumas coisas, mas eu não estava feliz, fui ficando doente”, diz Filipe. Mas o caminho para o futuro apontava justamente para as origens. A mudança de rumo começou há cinco anos, durante a pandemia de Covid-19, quando os irmãos decidiram contar aos pais que eram gays. “Foi um período difícil. Durante nossos intercâmbios, a gente foi criando forças, um apoiando o outro. A gente tinha muita preocupação de não ser aceito e não ter um meio de subsistência, até chegar a um ponto em que a gente não aguentava mais ter que fingir uma sexualidade que não é a nossa natural”, lembra Tiago. Café produzido por irmãos do Sul de Minas recebeu o nome "Nhaí", em a cumprimento LGBT Divulgação A preocupação não se concretizou. Após o impacto inicial de ter dois filhos se assumindo gays ao mesmo tempo, começou um processo de aceitação pelos pais. Segundo os irmãos, esse acolhimento foi decisivo para que eles enxergassem a fazenda da família como um lugar onde poderiam construir a própria vida. “A gente foi fazendo um letramento com eles, foi um processo natural, de muita conversa. Eu acho que essa aceitação dos nossos pais nos fez ver que o café, a fazenda e o agro eram uma opção. Que a gente tinha um lugar seguro para voltar”, analisa Tiago. Cansado da pressão das metas do mercado financeiro, Filipe foi o primeiro a retornar, em 2023. O que seria um período de descanso virou um reencontro com as origens, que segue até hoje. Aos poucos, ele foi se envolvendo com os trabalhos da fazenda. “Eu voltei só para descansar, mas, quando eu cheguei, a roça já estava enfrentando o problema da falta de mão de obra e meu pai me pediu para ajudar. Fui me apaixonando e virou esse envolvimento todo do agro nas nossas veias”, diz. Tempos depois foi a vez de Tiago passar um tempo em Minas e também se envolver no universo onde já habitavam seus pais e irmão. “Eu nunca tinha acompanhado uma colheita ao todo. Foi quando eu comecei a enxergar como uma opção. Eu vi que gostava daquilo, tinha uma ancestralidade”, afirma. Representatividade A experiência na fazenda despertou o desejo de empreender. Inicialmente, Filipe havia a marca Grão Esperança, em homenagem ao nome da fazenda. Mas a vontade de valorizar a própria essência levou os irmãos a lançarem uma edição especial do café durante o mês do orgulho LGBTQIA+. Foi o pontapé para criarem a marca Nhaí. O nome, ideia também de Filipe, foi inspirado em uma saudação típica da comunidade LGBTQIAPN+. "A nossa visão de voltar para a fazenda e ir para o agro, criar uma marca de café, vem muito da aceitação dos nossos pais. A gente conseguiu ressignificar esse lugar que pensávamos que não tinha espaço para gay, que a gente não ia ser bem aceito e não ia conseguir trabalhar junto com nosso pai. Acabou que isso se mostrou muito diferente”, diz Tiago. O começo, porém, foi acompanhado por episódios de insegurança e preconceito, até dentro da própria família. Todos ignorados pelos irmãos, que se apoiavam e acreditavam no negócio. “O pessoal arrancava a bandeirinha LGBT da embalagem, a gente tinha que ir repor no supermercado. Havia piadas de mau gosto. Mas a gente foi ignorando isso e tendo muita aceitação”, conta Tiago. As dificuldades serviram para incentivar os irmãos a criarem um produto de qualidade. “O gay tem que se provar muito para a sociedade. Depois você cresce, o povo elogia, mas até então você não tem valor, então a gente tinha que ter um café especial para poder competir”, defende Filipe. O reconhecimento veio com muito trabalho. No campo e na cidade. A divulgação começou de porta em porta. O primeiro estabelecimento a vender a marca foi uma cafeteria da Rua Augusta, em São Paulo, conhecida pela diversidade e cultura alternativa. Desde então, o café vem ganhando espaço em centenas de pontos de venda, entre empórios e redes de supermercado premium. Um dos diferenciais do Nhaí é a produção de café fermentado, feito por meio de um processo cuidadoso, em pequena escala, que exige controle rigoroso de temperatura e umidade no tratamento dos grãos. Segundo os irmãos, o resultado proporciona um perfil sensorial mais complexo. Na safra do ano passado, o café Nhaí alcançou 87 pontos na avaliação da bebida. A conquista encheu toda a família de orgulho. Tanto que o pai, o cafeicultor Gláucio Garcia Mendonça, já pensa em investir em um lavador de café que já separa os grãos para ajudar os filhos. O empreendedor Filipe Campos Mendonça com o pai Gláucio Garcia Mendonça, produtor dos grãos utilizados no café Nhaí Arquivo pessoal Aliás, foi na experiência que o pai tem na produção de café de qualidade, que os irmãos se apoiaram para começar o negócio. À tradição familiar, eles somaram inovações adquiridas com consultores e cursos que fizeram. “O meu pai sempre foi muito criterioso com a qualidade do café. A gente pegou essa expertise dele, ao mesmo tempo que também trouxe algumas coisas novas", diz Tiago. Coragem que inspira Ao contarem com o apoio dos pais, os irmãos encontraram forças para ultrapassar todos os obstáculos. "Foi um divisor de águas. Depois que eles souberam e nos acolheram, a gente viu que estava tudo bem, o resto era resto. A gente estava trabalhando honestamente, não estava prejudicando ninguém, correndo atrás do que é nosso, do nosso sonho, no que a gente acredita, com muita identidade, e a marca fazia muito sentido. A gente vivencia essa questão do orgulho o ano todo", afirma Tiago. Além do apoio dos pais, a parceria entre os irmãos é um dos pilares do negócio. Enquanto Filipe cuida da parte administrativa, Tiago se dedica ao marketing, às vendas e ao relacionamento com clientes. "Eu acho que a confiança que um tem no outro é muito importante. Eu confio nele de olhos fechados, ele confia em mim, e vai dando muito certo", resume Tiago. A coragem e o empreendedorismo dos irmãos são inspiração para outros agricultores que enfrentam a mesma realidade. Eles passaram a receber mensagens de outros produtores que se identificam com as suas histórias. "Eu não imaginava que havia muitos outros gays na mesma situação, também no meio do café. Isso é muito bom de ver, que existem muitos mais", diz Tiago. Hoje, mais do que vender cafés especiais, Felipe e Tiago enxergam a marca como um símbolo de pertencimento e representatividade. “A gente fica muito feliz porque é o que a gente é, a gente pode ser gay, a gente está inserido no meio do agro e a gente tem orgulho da nossa marca de levantar essa bandeira”, diz Tiago. Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2026/08/15/representatividade-irmaos-de-mg-vencem-preconceito-e-conquistam-mercado-com-cafe-especial-lgbt.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Anunciantes